Por Renato Mello.
Foto: Renato Magolin.
Em cartaz até o dia 13 de março no Mezanino do Espaço Sesc, em Copacabana, “Alice Mandou o Beijo” traz para temporada carioca um espetáculo delicado, intenso e de grande valor artístico.
A partir do texto de Rodrigo Portella desenvolvido para a Cia Cortejo, “Alice Mandou um Beijo” carrega em sua essência a singularidade do infeliz anacronismo da cena carioca: o olhar do interior em direção à capital do Estado, na contracorrente do que é o condicionante, excetuando-se alguns espetáculos de Niterói. A Cia Cortejo e Rodrigo Portella fazem da pequena Três Rios seu território de introspecção para dali desvendarem a complexidade do seu universo de criação.
Segundo sua sinopse oficial, “Quando a peça começa Alice já está morta. O público não a conhece pelo que ela é, mas pelo que descrevem dela. Paradoxalmente, Alice está viva dentro da casa. Todos falam dela todo o tempo, vestem suas roupas, executam suas tarefas, tentam assumir o seu lugar. O eixo dramático está nas delicadas decisões dos personagens diante da ‘ausência’ de Alice, uma espécie de representação da coerência familiar. Alice é quem dava sentido àquela convivência. Diante de sua morte, as relações se refazem, se transformam instáveis e até mesmo impossíveis.”
A linha narrativa de Rodrigo Portella de algum modo me remeteu a 2 dos melhores espetáculos de 2015, “Inútil a Chuva” e “Consertam-se Imóveis”, que traziam em sua estrutura alguma similaridade na maneira como tratava do imobilismo gerado a partir da ausência. No caso mais específico de “Inútil a Chuva”, lembra inclusive o modo como distribui o público. Embora cada uma dessas 3 peças sigam caminhos muito próprios e peculiares, fruto da enorme capacidade dramatúrgica de cada um dos seus criadores, Paulo Moraes(“Inútil a Chuva”), Keli Freitas(“Consertam-se Imóveis”) e aqui Rodrigo Portella.
Rodrigo Portella busca uma estrutura narrativa que se destaca não somente pelo desenvolvimento dramatúrgico e pela densidade que alcança nas situações limites que impõe aos seus personagens, mas igualmente como delineia cada um deles. Existe profundidade e verdade no que os move(ou paralisa), em que não se permite a gestos e intenções gratuitas, onde tudo é extraído do interior do seus inconscientes. As marcações e o desvendar dos saltos temporais surpreendem, promovendo um desenvolvimento circular na linha dramática, redundando propositalmente o imobilismo. Sem dúvida um texto de rara qualidade!
Rodrigo Portella, com a co-direção de Leo Marvet, tem a perfeita noção de como deve levar adiante sua estrutura cênica. A plateia é dividida em 2 colunas de assentos, de frente para a outra, concentrando como numa redoma o espaço físico do espetáculo. As marcações são cirúrgicas, com um nítido objetivo em cada movimento e na definição das áreas de atuação para cada um dos seus atores. Explora no limite exato o drama interior contido no âmago de todos os personagens.
O elenco é composto por Bruna Portella, José Eduardo Arcuri, Luan Vieira, Tairone Vale e Vivian Sobrino. Bruna Portella e Vivian Sobrino interpretam o eixo principal de tensão através das irmãs Jandira e Oneide, respectivamente. Ambas estabelecem um jogo cênico em atuações de altíssima intensidade e profunda densidade, que terá na figura masculina(do passado ou do presente) um permanente elemento desestabilizador de suas relações. Enquanto Jandira trilha os percursos da auto piedade, Oneide se protege através de um certo sarcasmo para atingirem a altura adequada para o extravasamento da dor que lhes atormenta, sem deixar-se levar por exageros, mas com a eloquência que o texto permite. Excelentes atuações de Bruna Portella e Vivian Sobrino! Tairone Vale desponta pelos caminhos da melancolia enquanto busca despertar para a vida após a viuvez, mas deixa-se impregnar por uma prisão psicológica ao ambiente e na comodidade para onde conduz seus rumos sentimentais. Seu papel exige uma condução mais precisa e contida da tonalidade com que necessita empregar suas emoções, no que o ator realiza com total correção. José Eduardo Arcuri interpreta o pai de Alice, Oneida e Jandira. Busca nas suas limitações físicas que a idade e os percalços da vida lhe proporcionaram um ambiente propício para gradativamente fugir de um mundo real que lhe é detestável e das pessoas que lhe são desprezíveis, preferindo a nostalgia, expressada através das escolhas musicais, e opta por deixar-se isolar em seu mundo interior. Luan Vieira é o filho autista de Jandira e um elemento que todos usam como argumento para as atitudes(ou a falta de) a serem tomadas. Luan realiza um convincente mergulho interior, com um trabalho bem realizado com os instrumentos inerentes ao ator, a linguagem corporal, o modo como sustenta o olhar e como se utiliza da técnica vocal. É sempre um tipo de personagem desafiante, principalmente para não se cair na caricatura ou no exagero, armadilhas nas quais o ator conseguiu desvencilhar-se.
A cenografia de Raymundo Pasine tem grande contribuição para a estruturação da atmosfera desenhada pela dramaturgia de Rodrigo Portella, inclusive como pontua geograficamente e temporalmente o espaço cênico, delimitando um ambiente familiar através de grandes estantes, pesadas em sua formatação e estética, típicos de residências do interior, mas que mantém uma certa aura de pertencimento a anterior geração.
Figurinos de Daniele Geammal com adequação ao meio social retratado e plenamente contextualizado, inclusive para realizarmos uma idealização da figura de Alice.
Ótimo trabalho de iluminação de Renato Machado, buscando os focos em objetos específicos e ressaltando com acerto os momentos dramáticos.
“Alice Mandou um Beijo” é um espetáculo complexo e que executa de forma plena todas as suas potencialidades, não deixando desperdiçar-se em aspectos superficiais. Nesse começo de ano é sem dúvida uma das principais obras teatrais da cena carioca.
Ficha técnicaTexto e Direção: Rodrigo PortellaCo-direção: Leo MarvetElenco: Cia Cortejo / Bruna Portella, Jose Eduardo Arcuri, Luan Vieira, Tairone Vale e Vivian Sobrino.Iluminação: Renato MachadoFigurinos: Daniele GeammalCenografia: Raymundo PesineProjeto Gráfico: Raul TabordaFotos de Divulgação: Renato MangolinAssessoria de Imprensa: Ney MottaProdução e Realização: Cia CortejoServiçoSinopse: Quando a peça começa Alice já está morta. Paradoxalmente, ela está viva dentro da casa. Todos falam dela todo o tempo, vestem suas roupas, executam suas tarefas, tentam assumir o seu lugar. Alice é quem dava sentido àquela convivência. Diante de sua morte, as relações se refazem, se transformam instáveis e até mesmo impossíveis.
Local: Espaço Sesc (Mezanino) – Rua Domingos Ferreira 160, Copacabana, Rio de Janeiro. Tel. 21 2548-1088Estreia: 13 de fevereiro, sábado, às 21hTemporada: 13 de fevereiro a 13 de março. Quinta a sábado às 21h. Domingo às 20h.Valor do ingresso: R$ 20 (inteira) e R$ 5 (associado Sesc)Classificação Indicativa: 16 anosDuração: 75 minutosGênero: Drama
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