Por Renato Mello.
Fotos: RMNZ
Escrito a partir de um argumento da Utópica Cia de Teatro e desenvolvido por Joaquim D’Alvura, Nathalia Colón e Paula Barbosa, o espetáculo “Aquarius” se apresenta em curtíssima temporada no Parque das Ruínas, Santa Teresa, somente até o dia 28 de fevereiro.
Com direção assinada por Nathalia Colón, busca uma reflexão sobre os relacionamentos humanos no tempo futuro e narra, segundo sua sinopse oficial, a história de Lilian e Renato, “um casal que mantém suas relações por intermédio de AQUARIUS, uma rede de satélites interplanetária que agrega e promove um fluxo constante de troca e circulação de conteúdos e de todas informações dos usuários. Eles pensam que se conhecem muito bem, certeza que com sofre sérios abalos quando Lilian propõe um encontro presencial”.
O desafio deste tipo de proposta reside não somente na construção de uma linha dramática consistente sobre uma história que centra na discussão emocional de um casal diante das angústias de seu tempo, mas igualmente na criação de todo um universo ficcional que sustente e seja coerente com os sentimentos expostos pelos personagens. Justamente é nessa interseção entre os personagens com o seu tempo que o roteiro de Nathalia Colón, Joaquim D’Alvura e Paula Barbosa encanta e fornece os sedimentos para os personagens, com um cuidado para não transformar o exercício futurologista em mero elemento escapista, mas muito bem contextualizado na linha dramática, buscando aprofundar a reflexão sobre a consequência do uso da tecnologia nas relações humanas. A dependência pela imagem e sua utilização ininterrupta faz do homem seu refém e cria abismos nas relações afetivas como na relação do homem com seu espaço físico. Somente dentro de sua redoma encontra-se protegido da nocividade exterior, como as 88 janelas em frente habitadas por 88 solitários seres, mas acima de tudo, um lugar em que o contato físico e o calor humano são elementos desestabilizadores.
A movimentação cênica de Nathalia Colón ressalta as fragilidades do homem no seu contexto, delimitando numa “ilha” os percursos pelos quais seus atores se equilibram. O modo como a diretora explora o contexto emocional dos seus personagens dentro do espaço físico e da atmosfera criada tem impacto direto no êxito da proposta, conseguindo explorar através dos medos e angústias interiores de seus personagens todo o entendimento do sistema dos quais estão inevitavelmente atados.
Nina Pamplona(Lilian) e Bayron Alencar(Renato) vivem um casal típico de seu tempo e estabelecem em cena uma ótima química, potencializado a dimensão de suas fragilidades através de interpretações consistentes para exteriorizarem na altura adequada todos os sentimentos que lhes aprisionam. Paula Barbosa é a personificação do sistema de administração global Aquarius, num tipo de interpretação que requer um requinte criativo com o qual a atriz compôs seu “personagem”, utilizando seus instrumentos corporais com uma movimentação mecânica, a utilização asséptica da técnica vocal, o olhar vazio e indiferente, num processo que exige uma técnica apurada em que o ator tem que “esvaziar-se” de todo o sentimento. Mais uma excelente atuação de Paula Barbosa, num registro bem diferente do que já havia presenciado anteriormente.
Eric Fully desenhou seu cenário de maneira correta com os conceitos propostos no roteiro, criando uma “ilha” de isolamento e uma busca para o passado através de pequenos objetos prosaicos de nosso cotidiano.
Os figurinos de Luiza Valente de acordo com as necessidades que se apresentam e contribui para o desenvolvimento da composição dos personagens, inclusive no conceito proposto para o personagem de Paula Barbosa.
A iluminação de Rafael Turatti, consegue expor com bastante consistência os principais momentos dramáticos do espetáculo.
Um ótimo espetáculo que traz uma discussão fascinante olhando para um futuro, mas que acaba por mostrar que estamos mais perto dele do que pensamos.
Serviço:
Espetáculo Aquarius. Texto: Joaquim D’Alvura, Nathalia Colón e Paula Barbosa. Direção: Nathalia Colón. Produção: Utópica Cia de Teatro. Temporada: 19 a 28 de fevereiro. Horários: Sextas-feiras e sábados: 20h. Aos domingos, às 19h30. Local: Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas. Endereço: Rua Murtinho Nobre, 169 – Santa Teresa, Rio de Janeiro – RJ. Telefones: (21) 2215-0621 / 2224-3922. Ingresso: R$ 20,00. A capacidade da sala: 86 lugares. A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo. Duração: 60 minutos..
Ficha técnica: ARGUMENTO: Utópica Cia de TeatroTEXTO: Joaquim D’Alvura, Nathalia Colón e Paula BarbosaDRAMATURGIA: Joaquim D’AlvuraDIREÇÃO: Nathalia ColónASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: Paula BarbosaELENCO: Nina Pamplona e Bayron AlencarDIREÇÃO MUSICAL: Dani Carneiro e João GuesserPESQUISA CÊNICA: Nina Pamplona, Bayron Alencar, Monique Bernal e Rodrigo FerreiraDESENHO DE LUZ: Rafael TurattiFIGURINOS: Luiza ValenteCENÁRIO: Eric FulyFOTOGRAFIA: RMNZDIREÇÃO DE ARTE: Eric FulyPROGRAMAÇÃO VISUAL: Bayron AlencarPRODUÇÃO E REALIZAÇÃO: Utópica Produções e Arte
Joyce NogueiraAssessora de Imprensanogueirajoy@hotmail.com
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