SÃO PAULO – Com uma decisão do Banco Central em linha com a que o mercado esperava, de manutenção da Selic em 14,25%, todos os olhos se voltaram para o comunicado e para o placar da decisão. O intuito era buscar pistas de quando a autoridade vai começar as cortar os juros.
A falta de consenso entre os membros do Copom (Comitê de Política Monetária) sobre a decisão, com dois diretores ainda votando pela alta do juro, contradiz as apostas que se firmaram no mercado de juros esta semana de que um ciclo de corte da Selic comece ainda este ano. O placar dividido diminui a chance de queda da Selic no curto prazo, mas alguns economistas ainda veem possibilidade de corte antes do Natal.
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O comunicado da decisão do Copom diz que “avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, e considerando as incertezas domésticas e, principalmente, externas, o Copom decidiu manter a taxa Selic em 14,25% ao ano, sem viés”.
Para Carlos Kawall, economista-chefe do banco Safra, a dissidência entre os diretores nesse momento é funcional do ponto de vista de tirar a expectativa de que pudesse já haver um corte em breve.
“Eles [BC] não querem dar essa ideia”, disse Kawall à Bloomberg. “Alguns do mercado já esperavam votação unânime e as pessoas podiam pensar em corte da taxa em abril. Hoje eles fecharam essa porta”, avalia. Ele não descarta, porém, um corte mais para o fim do ano.
É preciso ficar atento aos votos dos diretores dissidentes, porque eles vão dar o viés do Copom, afirma André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. “Quando eles mudarem seus votos, isso vai querer dizer que o Copom vai baixar os juros na próxima reunião”, diz.
Os diretores dissidentes continuam os mesmos há três reuniões: Sidnei Corrêa Marques (Organização do Sistema Financeiro) e Tony Volpon (Assuntos Internacionais), que votaram pela alta da taxa de juros em 0,5 ponto percentual, para 14,75%.
Tatiana Pinheiro, economista do Santander, avalia que apesar do dissenso, o fato de o BC continuar colocando como relevante as incertezas domésticas – notadamente a questão da atividade econômica – reforça o viés de que o próximo passo da autoridade monetária será de um ciclo de corte dos juros, o que deverá começar no segundo semestre deste ano.
Ela avalia que na próxima reunião do Copom, em 27 de abril, os membros do BC já devem caminhar para um consenso. “Na próxima decisão os dados de inflação já vão ter entrado em trajetória de desaceleração e já vão ter saído mais dados de atividade em queda. Esses dois fatores devem levar a uma decisão unânime”, prevê.
A projeção do banco espanhol é de um ciclo de queda pequeno neste ano, de 125 pontos, levando a Selic a 13% ao fim do ano. Tatiana afirma que o BC deve começar o processo tateando, com um corte de 0,25 pp, testando o processo de desaceleração da inflação.
Inflação elevada
“Faz sentido essa dissidência se manter, já que o cenário continua de inflação elevada”, diz Ignacio Crespo Rey, economista da Guide Investimentos. Ele prevê que o BC vai revisar para cima sua expectativa de inflação para 2017 – dentro de seu “horizonte relevante de política monetária” – no próximo Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que será divulgado no fim deste mês.
“Com projeção de inflação mais alta para 2017 será difícil ele virar a mão e cortar os juros agora e ter que elevar de novo mais para frente”, afirma.
O BC vem repetindo o compromisso de trazer a inflação aos limites da meta neste ano, para fazê-la convergir para 4,5% em 2017. A mediana do Boletim Focus mostra que as projeções são de IPCA em 7,57% este ano e em 6% em 2017.
“O Banco Central mostrou que não está preocupado com as expectativas, perdeu credibilidade. É muito difícil fazer a convergência no horizonte relevante, não vai ocorrer em 2017. É um Banco Central mais leniente, menos preocupado com inflação”, diz Juan Jensen, sócio da 4E Consultoria.
Preocupados com a crescente corrente do mercado que contava com um corte de juros ainda este ano, autoridades do BC – incluindo Tombini – foram a público nas últimas semanas para afastar enfaticamente a possibilidade de queda neste momento. Também afirmaram que viam uma redução de 2 pontos percentuais da inflação ainda no primeiro semestre.
(Com Reuters)
Selic
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Banco Central do Brasil
Alexandre Tombini
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